Lamento Lúcido

Rasguei o livro onde morava. Foi bom romper com as palavras que me adonei inadvertidamente, não escritas para mim. Tampouco para a minha restrita sabedoria - malditas metáforas, nunca saberei o que realmente estava escrito lá, mas, pouco importa, as orações foram esfareladas. Havia me feito personagem, mas, os livros não são criados por seus leitores, era preciso captar isso - ler em algum lugar. Ainda mais, um livro sem páginas, sem pé nem cabeça. Nem sei por onde comecei. Apenas fiz música com o partir da arte negra, para me libertar da alquimia de sua prosa. Dividir ao meio o nome do autor deu um último prazer, ali deixava de ser a figura que ele construíra para enfeitiçar. Agora mais do que nunca parecia dois - ainda mais desconhecidos pra mim. Misturado amiúde aos seus inventos, logo se tornaria lembrança. Tirar de ordem as letras, acrescentou nova cara ao enredo. O sentido daquelas linhas, agora é tão previsível quanto as loucuras praticadas quando a vida perde o seu. A estória se foi. Não sei se há salvação para a cabeça, eternamente perturbada pelos fantasmas dos personagens descobertos. De nada adianta fugir das palavras elas estão debaixo da pele, dentro carne, correndo nas veias, no oco dos ossos, em cada infame sinapse. Não há nada inédito no mundo, tudo já foi escrito e vivido. Principalmente o que digo. Sim, isso se torna cada dia mais um diário - adoro justificar e mostrar o que sinto, tenho saudade da pureza nos sentimentos e da fé que tinha no homem.

5 comentários:

Espaço Feliz disse...

"De nada adianta fugir das palavras elas est�o debaixo da pele, dentro carne, correndo nas veias, no oco dos ossos, em cada infame sinapse."
Forte suas palavras menina, concerteza as palavras parecem ser marcas, tatuagens, nos fazendo lembrar a td instante o momento que foi gerida. Talvez seja hora de tentar modificar, lavar, como se fosse poss�vel mudar esse sangue velho lamacendo que corre nas veias mtas vezes entupida, que na sua incapacidade de fun�o org�nica, oxigena cada vez menos o c�rebro, dificuldando at� a tentativa de escrever,de criar, de inventar, de mudar...
Entupindo a lixeira de pap�is escritos num linha sempre pela metade, como uma paix�o sem �pice, a lixeira vai transbordando e a noite vai deixando esse personagem cada vez mais s�...d� vontade de ouvir uma m�sica, de cantar, de dan�ar, mas � madrugada e n�o se pode fazer nada, nem barulho...
como crian�a de castigo se volta para frente do papel...e o tempo passa e qdo se vai jogar mais um papel no lixo, j� se v� a luz do Sol refletindo no azulejo da cozinha...
Nada de palavras, uma noite s� de sensa�es...
Palavras s�o t�o finitas, as sensa�es...
Adorei passar por aqui e ler o autor com medo de ser personagem, e o personagem com medo de ser leitor...
"Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho � os meus pensamentos
e os meus pensamentos s�o tds sensa�es." FERNANDO PESSOA
Obs: espero que n�o fike incomodada por eu ter passado aki :)
Beijosss menina

Sentir disse...

Vanessa; não me incomoda o que me emociona, tuas palavras me foram uma renovação cutânea.
Volta mais, por favor.

LB disse...

Deixei aqui um comentário no outro dia mas, parece, que não ficou... Vá-se lá saber porquê?
Bem o que, mais menos, tinha aqui deixado é que não creio que "Não há nada inédito no mundo, tudo já foi escrito e vivido. Principalmente o que digo". Há sim! Tu! Cada um de nós! Somos inéditos e só nós vivemos, sentimos, olhamos, dizemos... Pode ser até algo parecido, mas sempre único e inédito.

Beijinho

Sentir disse...

LB, o moderador é um cuidado com os indesejados, o que não é teu caso, não consta comentário anterior na minha caixa.

Os personagens podem ser outros, mas, a história sempre se repete. O que há de diferente? Acho que o número do telefone e do RG.
:D

beijos.

Fabio disse...

Entre Lispector e Nietzsche.

Em defesa de um tipo muito especial de leitor(a)

Rasgar um livro pode ser um ato de sabedoria contida. Pode ainda ser visto como manifesta expressão de uma liberdade ainda não exercida. Mas apenas poucos são os autorizados à desconstrução da obra, à fragmentação das linhas, assassinando, num só ato, autor, personagem e enredo. Eu diria que se trata de um homicídio qualificado pela multiplicidade de vítimas envolvidas no fato.

Clarice Lispector dizia com assustadora naturalidade o seguinte: "Eu escrevo para nada". Mas os leitores, ah...pobres leitores, sempre farão do ato de ler a busca de algo que lhes foge. Carência, lassidão, mero capricho...não sei. Se ela escrevia para nada, acho que nós, da raça humana, lemos para "tudo".

E talvez quando tudo se resolve, porque nos achamos ou porque, definitivamente, nos perdemos o livro cumpriu seu "papel". Pode ser rasgado, violentado e morto; Com arrimo nas palavras de Nietzsche digo que o livro que você leu precisava morrer, pois "tudo aquilo que está pronto, perfeito e acabado quer morrer".

Leitor(a), você não é uma simples assassina você é, sobretudo, nietzscheniana, por isso está absolvida, perante os homens e perante a Deus! E desta decisão não cabe recurso!