A pau e água

Oco de pau que diz: eu sou madeira, beira. Boa, dá vau, triztriz, risca certeira. Meio a meio o rio ri, silencioso, sério. Nosso pai não diz, diz: risca terceira. Água da palavra, água calada, pura. Água da palavra, água de rosa dura. Proa da palavra, duro silêncio, nosso pai. Margem da palavra entre as escuras duas margens da palavra, clareira, luz madura. Rosa da palavra, puro silêncio, nosso pai. Meio a meio o rio ri por entre as árvores da vida. O rio riu, ri por sob a risca da canoa. O rio riu, ri o que ninguém jamais olvida. Ouvi, ouvi, ouvi a voz das águas. Asa da palavra, asa parada agora. Casa da palavra, onde o silêncio mora. Brasa da palavra, a hora clara, nosso pai. Hora da palavra, quando não se diz nada. Fora da palavra, quando mais dentro aflora. Tora da palavra, rio, pau enorme, nosso pai.
A terceira margem do rio - Milton Nascimento e Caetano Veloso

Um comentário:

LB disse...

Milton... Caetano... Grandes nomes!

Beijinho