Quarta feira de cinzas

Num dia completamente cinzento. Entre livros novos comprados já lidos. Discos compactos adquiridos recentemente e tantas vezes já ouvidos. Móveis novos usados. Num quarto que era cozinha. Vejo da porta que foi janela, a única coisa nova que me circunda: as flores amarelas do ipê, nítidas contra o intenso das folhas, em cor mais gritante que as grades com tinta fresca da reformada biblioteca. Sufocam-me esses doze metros quadrados pintados de pardo, que habito ha doze meses, as listras diagonais em bege e marrom que não me agradam pisar, a agonia vermelha dos trinta e oito graus e o completo ócio que nem as duas cores de Harry Haller conseguem me abstrair. Penso em tudo que tenho, nas formas e cores das minhas coisas novas de segunda, terceira ou quarta mãos. E penso nele que não tenho, na sua forma e cor, imagino que também foi usado; lido; comido; cuspido; amado; absorvido; gasto e abduzido. E mesmo assim ainda julgo inédito. O que me aquarela o dia e o que me traz ar fresco é o imaginário de sua pintura, o tom entre o violeta e o verde, seu brilho anilado, safira como um céu diurno sem nuvens.
Goiânia, 10:05 am. Preciso comprar uma máquina nova.

Um comentário:

Sombra disse...

obrigado pela tua visita e respectivo comentário :) volta sempre que queiras. :)