Se não fosse uma leitora ocasional, não internalizaria as verdades escritas por aí, como absolutas. Ainda falando dos dias ausentes. Fazendo uma breve retrospectiva. Assim como Adão, surgi do barro, ou melhor era areia escaldante. Evolui pra livro, fui desejada, roubada da biblioteca e tive as páginas rasgadas para aquecer do frio. Fui Alices, Betty Boop, esboço, pintura e tatuagem. Princesa, rainha, cadela e gatinha. Cigana. Árabe. Italiana e até atriz americana em filme tosco. Dancei tango. Fui santa e profana. Beata servil. Secretária de luxo. Dona e escrava. Fui flor, fui fruto. Salvação e pecado. Estive por cima, por baixo, dentro, fora. No céu, nas asas de um anjo. Na lama, quando ele caiu. Fui única. A primeira e dileta. Amada e não. Até que um dia fui rosa, beberam todo o meu néctar. Cresceu ao meu lado um girassol, gigantesco. Seu talo era robusto, suas raízes fortes, sua cor tão intensa. Tive inveja, mas à sua sombra, fui perdendo o viço. Perdi as pétalas, as folhas. Meu caule secou. Fui arrancada do jardim. Virei adubo. Ufa! Acabei mais um livro.

Eu não sou eu nem sou o outro, sou qualquer coisa de intermédio: pilar da ponte de tédio que vai de mim para o outro. Mario de Sá-Carneiro, 1914.

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